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Vidas que inspiram comunhão

Irmã Luiza Maria Barreto Valle

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- Irmã Luiza Maria Barreto Valle

(101 anos de Vida, Oração, Trabalho)

 

 

Contar a própria história é narrar o amor infinito e misericordioso de Deus. Ao recordar minha vida, percebo quantas graças recebi e como o Senhor conduziu meus passos ao longo dos anos.

Sou Irmã Luiza Maria, nome religioso de Eunice Barreto Valle. Nasci em 14 de agosto de 1925, às 18 horas, na cidade de Garanhuns, Pernambuco. Sou a primeira filha de Hermínio de Souza Valle e Apparícia Barreto Valle. Tive dois irmãos: Eraclides, chamada carinhosamente de Quida, um ano mais nova que eu, e José, o Zezinho, quatorze anos mais novo. Ambos já faleceram.

Ao olhar para minhas origens familiares, reconheço a riqueza da mistura de culturas e raças presentes em minha história. Do lado paterno conheço pouco, supondo origens portuguesas com ligações indígenas e afrodescendentes. Meus avós paternos foram Manuel de Souza Valle, juiz de paz, e Angelina de Oliveira Valle, grande matriarca de uma numerosa família. Do lado materno, graças a uma árvore genealógica elaborada por meu tio Adauto, sei que temos raízes holandesas, portuguesas e indígenas. Meus avós foram Manuel Barreto da Silva Nen, também juiz de paz e um dos fundadores da cidade de Palmeira dos Índios (PE), e Joaninha Barreto Nen, indígena, mulher de firmeza e bravura admiráveis.

Passei meus primeiros anos em Correntes, Pernambuco, perto dos avós paternos. Quando eu tinha três anos, meu pai veio para São Paulo e ingressou na Força Pública como soldado. Depois de algum tempo voltou para buscar a família, e assim começamos uma nova vida em São Paulo. Como tantos migrantes nordestinos, sentimos muito a mudança: o clima, os costumes e a distância da terra natal.

Nossa família passou por momentos difíceis durante a Revolução de 1930. Morávamos perto do quartel da Avenida Tiradentes e tivemos que abandonar a casa às pressas por causa do risco de bombardeio. Lembro-me do medo daquele momento, quando minha mãe sofreu uma forte crise nervosa na Avenida Tiradentes e eu e minha irmã choramos muito. Fomos acolhidas por uma amiga da família. O quartel acabou sendo bombardeado e meu pai, que trabalhava na tesouraria, sofreu grande abalo emocional, chegando a perder temporariamente a memória e precisando ficar internado no Hospital Militar.

Foi nesse hospital que tive meu primeiro contato com religiosas. As Irmãzinhas da Imaculada cuidavam dos doentes com grande dedicação. Encantei-me com aquelas figuras vestidas de branco que caminhavam pelos corredores. Eu tinha apenas cinco anos quando nasceu em mim o desejo de ser religiosa. Na capela do hospital fiz também minha Primeira Comunhão, experiência que guardo como um dos momentos mais belos de minha infância.

Pouco tempo depois enfrentamos outra provação com a Revolução Constitucionalista de 1932. Meu pai foi enviado ao front e, após o conflito, foi rebaixado de tenente a sargento, o que trouxe dificuldades financeiras para nossa família. Mesmo assim, ele sempre repetia que lhe restavam a fé em Deus e o crédito na praça. Anos depois recuperou suas promoções e chegou ao posto de major. Sua morte, em 1967, na véspera do Natal, foi para mim um momento de profunda tristeza.

Desde pequena tive grande gosto pelos estudos e pela leitura. Fiz o curso primário em São Paulo e sempre fui apaixonada por livros. Ainda criança li obras de Júlio Verne, Monteiro Lobato e muitos outros autores, incentivada por meu pai.

Como ainda não tinha idade para ingressar no ginásio, fui matriculada no Colégio São Paulo da Cruz, das Irmãs Passionistas. Foi nesse ambiente que comecei a perceber com mais clareza os primeiros apelos de Deus para a vida religiosa. Cresci em uma família profundamente católica. Meu pai participava da Congregação Mariana e preparava soldados para a Páscoa, enquanto minha mãe, do Apostolado da Oração, rezava diariamente o terço e aos sábados o Pequeno Ofício de Nossa Senhora.

Na juventude participei da Cruzada Eucarística e mais tarde da Juventude Estudantil Católica (JEC). Também fui catequista na Paróquia do Menino Jesus, no Tucuruvi. Essas experiências fortaleceram ainda mais minha fé e meu desejo de servir a Deus.

Quando meu pai foi transferido para Taubaté, passei a estudar no Colégio Bom Conselho, das Irmãs de São José. Nesse período o desejo de ser religiosa cresceu ainda mais em meu coração. Confiei esse desejo a uma de minhas professoras, Irmã Maria Santo Antelmo, que me apresentou à Madre Josephina Gex, superiora provincial. Foi então que surgiu a oportunidade de ingressar no Juvenato que seria aberto em Itu para jovens vocacionadas.

No dia 28 de janeiro de 1942, ingressei no Juvenato em Itu, junto com outras cinco jovens. Ali terminei o ginásio e fiz o curso normal, vivendo anos muito importantes para minha formação humana e espiritual. Em 29 de janeiro de 1947, iniciei o Postulando e, alguns meses depois, ao receber o santo hábito, passei a chamar-me Irmã Luiza Maria. A alegria daquele momento foi grande e partilhada com minha família.

No dia 28 de julho de 1949, fiz meus votos temporários na presença da Superiora Geral. Nesse mesmo dia, fui enviada para minha primeira missão: o Colégio São José, em Santos, onde trabalhei como professora. Posteriormente retornei a Itu para cursar Geografia e História e mais tarde fiz especialização em Orientação Educacional na PUC de São Paulo.

Durante muitos anos exerci minha missão na educação, atuando como professora e orientadora educacional. Recordo esse período com gratidão, pois tive a alegria de acompanhar muitas jovens, construir amizades profundas e viver intensamente minha vocação.

Ao longo da vida religiosa, fui transferida várias vezes para diferentes cidades e comunidades: Patrocínio, Santos, Santana, Franca, Piracicaba, Taubaté, Caçapava, Ibicaré, Porto Alegre e também comunidades na periferia de São Paulo. Cada mudança exigia desapego, mas sempre procurei acolher com disponibilidade cada nova missão.

O que sempre me impulsionou foi o amor apaixonado por Jesus Cristo, a devoção a Maria e o exemplo de São José. Também tive a graça de participar de encontros internacionais da Congregação. Trabalhei como orientadora de retiros e acompanhei muitas pessoas em sua caminhada espiritual.

Hoje vivo na Casa de Cuidados das Irmãs, em Itu. Ao olhar para minha trajetória posso afirmar que me sinto realizada como Irmã de São José. Tudo o que vivi — alegrias e sofrimentos — contribuiu para meu crescimento e amadurecimento.

Às Irmãs mais jovens desejo deixar um apelo: vivam com fidelidade o carisma da Congregação fundada por Jean-Pierre Médaille. Cabe a nós manter viva essa chama e transmiti-la também aos leigos e leigas (LLPPs) que partilham nossa espiritualidade.

A Eucaristia sempre foi a fonte e a força de minha vida. Meu lema é simples: em tudo amar e servir. Mesmo nas pequenas coisas procuro transformar tudo em oração. Quando faço tricô, por exemplo, ofereço cada ponto ao Senhor com uma intenção.

Minha vida, como a de todas as pessoas, foi uma mistura de alegrias e sofrimentos. Porém, em tudo reconheço a presença de Deus que me conduziu e sustentou. Por isso, ao recordar minha história, só posso dizer com gratidão:

     Obrigada, Senhor, por todos os dons e graças que derramaste sobre mim.

 

Itu, 16 de fevereiro de 2026.


Grupo da Memória da Província

 

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