Irmãs de São José de Chambéry do Brasil e Bolívia
Notícia
18/08/2020
Em Missão numa Igreja Libertadora

Do Araguaia até o Xingu, / Do Pará ao Travessão

Prelazia de São Félix, / Povo de Deus no sertão!

(Hino da Prelazia de S. Felix)

 

No dia 30 de julho de 1968, chegavam a São Félix, de caminhão, os dois primeiros Claretianos: Pe. Pedro Casaldaliga Pla e Ir. Manoel Luzón. Região de 150.000 km², com extensas matas, povos originários em aldeias e posseiros, a maioria sertanejos nordestinos em roças-de-toco ou em reduzidos povoados. E já havia levas de peões que ralavam, explorados nas grandes fazendas dos Projetos Agropecuários. O Latifúndio tinha carta branca e incentivos fiscais do Governo Militar (1964 a 1985) para “desenvolver” essa e outras imensas regiões.  Ainda em 1968, chegaram a São Félix mais 3 Padres Claretianos e abriram um Ginásio a pedido do povo que só tinha um precário Grupo Escolar.

 

Em 1969 começaram as conversas dos Claretianos com o Conselho Provincial das Irmãs de São José de São Paulo, para enviar Irmãs à missão de São Félix. No mesmo ano, Pe. Faliero, Claretiano que pregava um retiro às Irmãs, chamou Pedro a Itu. Pedro falou às retirantes sobre a missão acendendo o desejo missionário em várias ouvintes.

 

A 25 de julho de 1970 foi erigida a Prelazia de São Félix do Araguaia e Pedro Casaldaliga, foi feito seu primeiro Administrador.

 

Em 1970, a Provincial, Irmã Maria Bernadete Leme Monteiro e Irmã Maria Gabriela Nogueira, do Conselho, foram a São Félix. Após trâmites oficiais, a Congregação assumiu a missão. A 16 de fevereiro de 1971, viajaram para São Félix, as 05 primeiras Irmãs: Maria de Lourdes Faleiros, Lucia Leal da Costa, Maria Noemia Campos, Bernarda Martini e Irene Franceschini. Foram num avião da FAB, acompanhadas de Irmã Maria Gabriela. Um grande número de alunos/as e professores/as aguardavam a comitiva, no aeroporto em S. Isabel do Morro, Ilha do Bananal. Foram recebidas com rojões e um hino feito por uma aluna. A recepção continuou em SF, depois de atravessar o rio Araguaia de barco. Dois jovens professores leigos vinham com as Irmãs.

 

Aí foi começar a organização para o trabalho num esquema de Pastoral e Promoção Humana: visitas nas casas, clubes de mães, grupos de rua, de jovens, catequese, educação popular, saúde com o ambulatório, etc....  Em junho/70, chegou a Irmã Armandina Barbosa reforçando o atendimento à saúde. Em 1972, Irmã Maria de Fátima Gonçalves, esteve 25 dias, contribuindo na área da saúde, grande problema na região.

 

“A carta de Pedro que mudou a Amazônia”

 

A 30 de setembro de 1971, Paulo VI nomeou Pedro Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia. Logo, no dia 23 de outubro, foi sua sagração episcopal, à beira do rio. Um Bispo, pé no chão, com símbolos típicos da região. Nesse dia memorável, lançou a Carta Pastoral: “A Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndiomarginalização social”. Uma voz profética, grito da Amazônia batendo de frente com o regime militar. Seria a primeira denúncia mundial sobre a situação da Amazônia. Chegou a ser chamada “A carta de Pedro que mudou a Amazônia”.

 

A reação não se fez esperar. A 03 de março de 1972, há um confronto entre posseiros e jagunços da fazenda Codeara, em Santa Terezinha. Posseiros foram presos, outros esconderam-se na mata. Assim aos poucos e até rapidamente, como podemos conferir em seguida, a realidade foi exigindo redefinir, as formas de presença e atuação. Toda a Equipe de Pastoral (Agentes de Pastoral Leigos/as, Padres, Irmãs e o Bispo) diante do conflito, decidiu, evangelicamente, fazer a opção pastoral comprometida com os índios, os posseiros e os peões explorados nas fazendas. Opção que fazia toda a diferença dando a largada para uma Igreja libertadora.  Os sinais desta opção, seu preço e consequências estão registados na memória do povo, no “Alvorada” (Boletim da Prelazia), nos escritos do Pedro e em muitos documentos no Arquivo da Prelazia. 

 

Em maio de 1973, após comemoração do 3° Ano do Ginásio em SF, as aulas foram suspensas porque o pai de um aluno jurou de morte o Diretor. A Equipe suspendeu as aulas. O Regime Militar aproveitou o incidente para radicalizar o conflito. Descarregam a raiva contra todos os que não se calam diante da injustiça e opressão. Cresce o clima de tensão na cidade, ninguém prevê o que possa acontecer. A cidade está cheia de militares. O capitão Monteiro faz prender um Padre e uma Irmã. Duas horas de interrogatório. Ele marca uma reunião com todos os professores e funcionários no dia seguinte. Reunião? Era uma farsa. Foram todos fichados. A equipe é obrigada a assinar um “Termo de retratação” e a recomeçar as aulas o que acontece sob a mira de metralhadoras. Em cada sala, um soldado armado na porta. Clima de pavor na cidade. O povo é atemorizado, ameaçado e proibido de se aproximar dos Padres e das Irmãs. Vários Agentes são presos em São Félix e também em outros locais, inclusive muito maltratados e espancados. É forte a presença de militares em toda a região. 

 

No dia 16 de junho, Dom Ivo Lorscheiter e Dom Aloísio Lorscheider visitam São Felix, em solidariedade à Igreja local, claramente perseguida pelo governo militar.  Avisados em segredo, no dia 10 de julho, chegam Dom Ivo e Dom Fernando Gomes. Os membros da Equipe que não foram presos, viajam para Goiânia, descanso e reflexão. Aos poucos voltam. Os agentes de vários locais juntam-se em São Félix, enquanto um grupo continua preso em Campo Grande, cidade do Mato Grosso.

 

Recomeçam as aulas, as atividades. O povo vai se aproximando, superando o medo, há celebrações eucarísticas muito participadas.

 

As denúncias e acontecimentos da Prelazia se espalharam ganhando muitos inimigos e perseguidores. O Bispo Pedro, tantas vezes ameaçado de expulsão, de morte e até tocaiado, que o diga. Seguidor de Jesus, compartilhando sua vida e a vida e lutas do povo, prossegue, peito aberto, cheio de confiança em Deus e paixão pelo Reino.  Perseguida, a Igreja de São Félix ganhou também a admiração de muitas Igrejas que buscavam inspiração e caminhos de libertação no compromisso com o povo.

 

“Esta missão é um estímulo para a Igreja e boa para questionar a Congregação”

Depois dos primeiros embates na missão, aos poucos, pela idade ou saúde, as Irmãs da Comunidade inicial foram voltando a São Paulo, deixando apreciada contribuição numa igreja que nascia. Outras Irmãs foram chegando. Do primeiro grupo, só não voltou a São Paulo, Irmã Irene Maria Paola Franceschini, a famosa “Tia” da Prelazia. A Tia fincou pé e ficou até seus últimos dias em São Félix, 37 anos. Inclusive, num lapso de tempo em que as Irmãs foram chamadas de volta, por concessão, ela permaneceu na região. Famosa a Tia e famoso um de seus trabalhos: organizou minuciosamente o Arquivo da Prelazia, garantindo para a posteridade, acesso a numerosos e preciosos documentos que contam uma História imperdível.

 

Durante a maior parte do tempo, a Província de São Paulo, acompanhou e deu apoio às Irmãs na Missão em São Felix.  Mas com certeza, várias Irmãs sempre tiveram dificuldade de entender a opção desta Igreja. As visitas do Governo Geral e Provincial foram momentos importantes para refletir e retomar juntas o sentido de nossa presença e participação. Os encontros e partilhas na Província tiveram seu lugar neste processo. Inversamente, as Irmãs em missão na Igreja de São Félix, trouxeram para dentro da Província, nova experiência de compromisso e partilha nas lutas do povo, em busca de libertação. Consta uma avaliação das Irmãs do Conselho: “No conjunto: unidade pastoral ao mesmo tempo que um pluralismo de expressões e identidades. Esta missão é um estímulo para a Igreja e boa para questionar a Congregação”. Com certeza, participar desta querida e inspiradora Igreja, servindo o Reino até às últimas consequências, foi mais do que um desafio, foi um privilégio, uma bênção. Imensa gratidão ao “Pai das Luzes, de quem procede toda dádiva perfeita” (Tg 1,17). 

 

Pedro, Irmão, Pastor, Profeta, Poeta, Santo

Várias Irmãs tiveram graça de viver essa bênção, em diferentes espaços de tempo. Atualmente, quando é mais limitada a disponibilidade de membros, a Província tem, na região, uma comunidade com duas Irmãs. O Bispo Pedro pediu que as Irmãs de São José não desistam de manter presença missionária na sua Prelazia. 

 

Querido Pedro, Irmão, Pastor, Profeta, Poeta, Pobre, Santo, descansa em PAZ!

Nós, te amamos!

 

Irmã Paula de São José Gobbi

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Pedro Casaldaliga, nos 400 anos do nascimento do Pe. Médaille:

“Queridas Irmãs de São José de Chambéry, a Congregação é família da Prelazia de São Félix do Araguaia. Seguiremos muito unidos nas lutas e nas esperanças do Reino”.


Pedro Casaldaliga às Irmãs de São José, em março de 1987


São José de Nazaré,

Quebra-galhos no silêncio

E quebra-dias na fé.

 

Por companhia Maria;

Como serviço, Jesus;

Por entre as noites e os dias,

O claro-escuro da Cruz.

 

Ao lado do Esperado

Sabes ainda esperar,

Teu banco de carpinteiro

Feito salário e altar.

 





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