Irmãs de São José de Chambéry do Brasil e Bolívia
Artigos
27/07/2017
A Igreja NÃO precisa da mídia para existir

Entrevista

Tema: Comunicação – religião – mídia

Entrevistadoras: Eliana Aparecida dos Santos e Romila Hoffman do Amaral

Entrevistado:  Padre Elton Marcelo Aristides

 

“A Igreja NÃO precisa da mídia para existir”


             Natural de Bento Gonçalves/RS, Pe. Helton, 31 anos, desde jovem teve interesse por comunicação. No ano de 2005 iniciou os estudos na faculdade de Jornalismo na UCS. Em 2015 formou-se em Teologia pela PUC do Rio Grande do Sul e recebeu a missão de auxiliar a Diocese de Caxias do Sul como assessor de comunicação. Foi ordenado padre diocesano no dia 13 de novembro de 2016. Atualmente é assessor de comunicação da diocese e realiza serviços pastorais na Paróquia Santa Rita de Cássia no bairro Santa Fé.


            Pe. Elton conversou conosco por uma hora no seminário de Filosofia e falou sobre o trabalho na Diocese de Caxias do Sul como assessor de imprensa e sua missão de comunicador. Para ele a Igreja não precisa da mídia para existir pois existe há 2000 anos e sempre encontrou meios para chegar aos fiéis e realizar a missão de evangelizar.  A mídia é apenas um meio. No entanto, afirma a importância da comunicação e mídia para facilitar, agilizar e realizar o trabalho na Igreja. Com bom humor ele diz “antigamente o meio de comunicação das Igrejas era o sino. Ele avisava quando tinha missa, quando alguém morria, quando tinha algo importante acontecendo. Hoje não, hoje temos todas ferramentas aí e elas devem ser usadas a nosso favor”.


Como nasceu seu interesse por jornalismo? E como é ser um padre Jornalista?


Pe. Elton - Sempre gostei de comunicação, principalmente de rádio. Trabalhei em um jornal em Bento por 2 anos. Tinha um primo que fazia Jornalismo e não era só por isso, mas eu gostava mesmo, queria trabalhar com rádio. Hoje é o que menos faço. Como trabalho com os seminaristas fiz um projeto para um programa de rádio com eles. Projeto Igreja em saída. É uma forma de mostrar o que acontece na Igreja. Eles vão nas comunidades, paróquias e conversam com as pessoas das pastorais, entrevistam, gravam suas falas. Como Igreja fazermos um acompanhamento integral às famílias, desde o ventre materno na Pastoral da Criança até a velhice com as Pastorais da Pessoa Idosa, da Saúde. Precisamos mostrar essa nossa atuação. Esse Projeto Igreja em saída é uma forma de fazer isso.


 

Como você faz o “casamento” do jornalismo profissão com sua vida sacerdotal? Isso é tranquilo ou  tem desafios a enfrentar dentro do clero religioso?


Pe. Elton - No Jornalismo nós nos expomos muito. Portanto, é inevitável que aconteça rejeição. Sou único padre Jornalista na diocese e alguns de meus colegas não veem isso como positivo. Há, principalmente entre os mais velhos, a ideia de que é um desperdício um padre neste trabalho, poderia estar fazendo algo mais útil. Certamente eles ainda não entendem o valor da comunicação. Uma das coisas que o Jornalismo me ajuda é a fazer as homilias por exemplo. Como organizar o pensamento, a fala, a expressão.  Um desafio que encontro como assessor de comunicação é a exigência de disponibilidade. Preciso estar sempre antenado com tudo que se passa na diocese.  Mas isso faz parte do trabalho. Todo assessor de comunicação deve se manter em estado de alerta. Nunca se sabe o que vai acontecer e é preciso estar preparado.


 

Como você percebe o processo histórico da relação entre comunicação e religião? Como era há 10 anos atrás e como está hoje? Quais as principais diferenças e impactos isso causa nas Igrejas?


Pe. Elton Hoje chegamos onde não chegávamos antes. As mensagens, notícias instantâneas, os grupos de WhatsApp facilitam muito a comunicação. Para organizar uma reunião por exemplo, hoje é muito mais prático; rapidamente as pessoas respondem se podem, não podem, as vezes a gente encaminha a pauta, ou seja, a comunicação ajudou muito neste sentido.   Ainda existem problemas, tem as pessoas que não leem a mensagem, ou dizem que não recebeu. Além disso percebo que não sabemos nos comunicar e muitos não veem a importância da comunicação. Pessoas que usam as redes sociais pessoais, mas não partilham informações nas redes oficiais. Esse é um fenômeno que pretendo aprofundar.  Percebo que os mais jovens compartilham, o problema está com os mais velhos. Outra coisa recente nestes meios são as transmissões ao vivo pelo Face book por exemplo, algo que não era possível há tempos atrás.  Poder transmitir em tempo real uma missa, um acontecimento da Igreja. Porém uma crítica que faço é que temos os meios, mas não temos tecnologia que acompanhe.  Há muitos lugares com dificuldade de redes e sinais de internet; esse também é um problema que enfrentamos.

 


 Em sua opinião, o que está acontecendo com as religiões institucionalizadas (como a Católica, por exemplo) – sua autoridade, tradição, relevância social, identidade, prática, etc. – nesta nova era digital?


Pe. Elton - As pessoas estão podendo conhecer mais a Igreja, estão tendo mais acesso à informação estão começando a conhecer aqueles que fazem parte as lideranças da igreja, o que pensam o papa, bispos, padres de suas comunidades. Por exemplo, com  João Paulo II, não se tinha quase acesso ao que ele pensava a não ser por cartas apostólicas, uma ou outra notícia.... Hoje se tem acesso ao que o Papa pensa, faz, praticamente todos os dias pela face book, Twinter, Instagram, com imagens dele. As pessoas sabem onde ele está, com quem está se encontrando, o que fala. Com os cardeais, por exemplo, quando há uma assembleia, Sínodos é possível acompanhar em tempo real os debates, os temas. Então as pessoas podem participar mais da Igreja. Usamos muitas vezes o exemplo de que a Igreja Católica é um grande transatlântico, para que aconteça uma pequena mudança leva tempo, tem que ir com calma, não é um barquinho que se muda de direção quando se quer. Tem milhões de pessoas envolvidas. Antigamente o maior meio de comunicação da Igreja era o sino. Porque ele avisava quando havia missa, quando morria alguém, ou algo importante estava acontecendo.

 


Qual a sua expectativa sobre o futuro da relação entre as religiões e a mídia? Quais oportunidades e desafios se apresentam para as Igrejas nesse contexto?


Pe. Elton - Foram dados muitos avanços, A Igreja tem estudado, pensado a comunicação, tem encontros anuais sobre comunicação. A Igreja se reúne, debate,  reflete tenta encaminhar as coisas. Mas, tem muito a crescer. Como grande transatlântico tem muito a perfeiçoar.   O que a gente precisa hoje é profissionalizar a comunicação na Igreja, não basta colocar qualquer coisa no ar simplesmente por colocar. Hoje as pessoas querem qualidade na comunicação. Elas querem assisti um vídeo bem feito, bem editado. Já fizemos um bom caminho. As dioceses têm contrato pessoas que entendem sobre isso. Mas tem muito ainda para crescer.

 


 Stewart M. Hoover é professor de Estudos de Mídia da Escola de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos. Ele afirmou, em uma entrevista para o Instituto Humanistas on-line da Unisinos que, "Para existirem hoje, as religiões devem existir na mídia". Você concorda com essa afirmação? Por quê?


 Pe. Elton - Não! A Igreja católica existe há 2000 anos. Ela sempre esteve em comunicação. Acompanhou a evolução da comunicação. Esteve sempre próxima dos meios.  Acompanhou o surgimento do cinema que foi o primeiro grande veículo de massa, até o que está surgindo agora na comunicação.  A princípio não viam com bons olhos o cinema por causa das produções da época, mas em seguida deu um estalo, e pensou-se “podemos usar o cinema a nosso favor, nós podemos produzir conteúdo para as pessoas, nós podemos fazer parte de quem pensa o cinema para também produzir material. ” Mas antes disso a Igreja já existia há séculos.  Não esperou surgir a comunicação para nascer, se desenvolver.  Quando fechamos o debate na mídia é um grande problema.  Vamos pensar o que é comunicação em primeiro lugar. A comunicação não se dá só na mídia. Aqui está acontecendo a comunicação. Uma comunicação verbal, ou não verbal. Aquilo que reuniu as primeiras comunidades cristãs em torno do evangelho, dos apóstolos era a comunicação, a comunicação verbal. A Sagrada Escritura, os evangelhos, foram tradições orais que depois foram escritas, isso é comunicação, e não precisou da mídia para existir. A religião é algo transcendente. Portanto a mídia é mais um meio. Ela não é essencial para a Igreja. A Igreja não precisa dela para viver. Se não fosse a mídia a Igreja encontraria outros meios para realizar sua missão, como encontrou até hoje ao longo da história.  






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